[ editar artigo]

O que o Design pode fazer por mulheres vítimas de violência sexual na infância e adolescência

O que o Design pode fazer por mulheres vítimas de violência sexual na infância e adolescência

Quando você leu a palavra "design" no título deste artigo, provavelmente associou a um contexto mercadológico, a consumo, a produção, a estética. Ou, se você é um estudante de design do primeiro período, associou com uma ideia de semi-deus, o profissional salvador de tudo e de todos.

Nem lá, nem cá. O design vai sim muito além de um ofício meramente técnico que alia forma e função, mas ele, sozinho, também não soluciona a vida de muita gente. 

Quando se pensa em problemas sociais, há sim espaço para atuação dos profissionais de design. "Eles podem funcionar como atores sociais que, graças às ferramentas culturais e operacionais das quais dispõem, conseguem alimentar e apoiar processos de design nos quais todos nós, especialistas e não especialistas, estamos envolvidos." (MANZINI, 2017)

Partindo desse princípio e, motivada por vivenciar de forma pessoal os impactos da falta de espaços seguros para mulheres que enfrentaram o abuso sexual na infância e adolescência dialogarem, passei a procurar formas de, através do design gráfico, colaborar com uma solução. 

Colaborar porque entendo que o design, como qualquer outra área de atuação profissional, não é capaz de solucionar problemas da esfera social sozinho. A violência sexual contra crianças e adolescentes é estudada de múltiplas perspectivas e, para encontrar soluções eficazes, é preciso trabalhar de forma coletiva e colaborativa, incluindo não somente múltiplos profissionais especialistas, mas priorizando a participação das protagonistas: as vítimas. 

De acordo com o Boletim Epidemiológico de 2018 do Ministério da Saúde, entre 2011 e 2017 foram notificados 141 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, mais de 75% dos casos notificados no território nacional. 

Dentre as crianças (zero a nove anos de idade) vítimas dessa violência, 43.034 (74,2%) eram do sexo feminino. Já considerando adolescentes (dez a dezenove anos de idade) o percentual correspondente ao sexo feminino aumenta para 92,4% das vítimas, um total de 76.716 notificações (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2018).

Além dos dados tão alarmantes, é claro para saúde, psicologia e legislação que a violência sexual é um problema de grande impacto que resulta em relações disfuncionais tanto no espaço familiar quanto social. 

Olhar para os números, para minha história, para as tantas vítimas do meu círculo de convivência, me faz refletir sobre essa violência através da perspectiva de gênero e questionar as relações estabelecidas culturalmente no contexto brasileiro. 

A cada etapa de estudo e pesquisa, me vejo mais perplexa com o quanto as vítimas são invisibilizadas e mais motivada a usar da minha atuação profissional para tentar promover espaços onde elas tenham voz

É por isso que, como etapa primordial do projeto de design, desejo conhecer a opinião de quem quero alcançar. Considerando o contexto de 2020, elaborei um questionário online e anônimo para tentar alcançar mulheres de uma forma segura. 

Se você, mulher, foi vítima de violência sexual entre 0 e 19 anos de idade, eu gostaria muito de conhecer a sua visão sobre o que seria um espaço seguro de diálogo, compartilhamento e apoio. Sua participação é anônima, mas grandemente significativa.

Clique aqui para responder o questionário.

E para você, que não é mulher, ou não viveu uma situação de abuso, te proponho questionar, problematizar, não se conformar. Há violências, abusos e injustiças invisíveis acontecendo há todo momento. Talvez não te pareça acessível colaborar através da sua atuação profissional, mas um dia também não me pareceu possível usar o design como ferramenta de transformação social. 

Deixo, para finalizar, um lembrete: aos problemas sociais não cabem soluções simples, mas existem sim soluções possíveis através da colaboração.

COMUNIDADE EFEITO ORNA
Beatriz Madeira de Campos dos Santos
Beatriz Madeira de Campos dos Santos Seguir

Designer e Fotógrafa autônoma.

Ler matéria completa
Indicados para você