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Caminho

Caminho

Reflexões sobre uma transição profissional e de estilo de vida.

 

Na virada de 2018 para 2019 eu entrei para a estatística e tive o mesmo problema que quase todos da minha geração tiveram ou ainda vão ter: crises de ansiedade e ataques de pânico, derivados de trabalhar demais com o que eu gostava de menos – e também um resultado da tentativa de equilibrar diversas funções ao mesmo tempo. Tinha poucas horas de sono, pouco tempo para o lazer e dançava bem pouco (algo que amo). Mas todas as vezes que eu me via desistindo de viver como sonhei, praticamente cedendo e quase aceitando que “a vida é isso mesmo…”, algo me trazia de volta: eu tinha uma ideia. E, mesmo exausta, começava tudo outra vez. 

A verdade é que, mesmo com um currículo repleto de cargos na área do Marketing Digital, eu não sou uma vendedora, ou uma estrategista calculista. Nunca fui. O esforço emocional e mental que eu precisava fazer para exercer esse tipo de função chegou ao ponto de quase me adoecer de dentro pra fora, até que despertei de uma vez por todas e assumi para mim mesma e para o mercado que não sou marketeira; sou uma Criativa, uma contadora de histórias, sejam elas reais, fantásticas ou as minhas histórias. 

Eu preciso me comunicar, está na minha natureza. Por isso, como estou vivendo uma intensa mudança de vida (profissional, que para mim também é pessoal), resolvi lá no LinkedIn uma série de textos sobre a busca por aquilo que eu vim realizar nesse mundo.

Quem sabe esse não conforto alguém? Quem sabe o exercício de escrever não me desperta novos insights? Começarei falando, então, sobre o que me move: a criatividade. 

 

A criatividade salva

“Você é super criativa” – eu sempre escutei. Mas a verdade é que todos somos criativos. Todo cérebro é capaz de criar. Penso que o diferencial não está na criatividade, mas na ousadia e na coragem de colocar uma ideia no mundo. E lidar com as limitações e possíveis fracassos, claro. Eu não sei fazer diferente. Para mim, só tem uma opção: tudo o que eu tenho capacidade de imaginar, quero colocar para o mundo. Vira uma meta. Tem que ser palpável, tem que ser real! Não existe a possibilidade de pensar em algo apenas para ficar no mundo das ideias e, naturalmente, esse processo é um tanto sofrido, pois nem sempre tenho os recursos, o espaço ou o tempo ideal pra lançar uma ideia para o mundo, né? Mas, pouco a pouco, estou aprendendo a controlar esse tipo de ansiedade.

Cresci privilegiada, em uma família de classe média. Pai músico amador e gerente de gravadora; mãe jornalista de televisão (hoje, veterinária). Ou seja, uma casa criativa e de Humanas, onde até meu irmão engenheiro toca violão. Sempre estudei o que quis (Moda, Fotografia, Dança) e dei todos os pontapés que quis – inclusive com o apoio dos meus pais – até iniciar minha carreira profissional. Meus pais, que batalharam muito mais na vida que eu, foram naturalmente cortando meus recursos, principalmente quando decidi sair de casa precocemente, aos 21 anos. E quando a coisa ficou “séria” – a chamada “vida adulta” –, tudo desandou. Naturalmente, fui engolida em um mundo com tanta gente talentosa e comecei a ser dominada pela insegurança. Adiei e desviei diversas vezes do caminho que realmente queria seguir por medo de não ganhar dinheiro, de decepcionar os meus pais, por influência de namorados, por uma ideia não ser “comercial o suficiente”, ou diferentona o suficiente, ou hype o suficiente e tantos outros motivos mais. Quando vi, todas as minhas maiores paixões se transformaram em “projetos paralelos”. Sabe aquele discurso? “Eu tenho um projeto pessoal muito legal”. Esse tipo de coisa… Passei anos – mais precisamente dos 20 aos 30 – criando coisas com muita dedicação e profissionalismo mas que, no fim, eram tratadas por mim – e consequentemente encaradas pelos outros – como “projetos paralelos”. 

Fui me rebaixando e, por muito tempo, não me julguei digna de ser “artista” ou “criativa”. Conheço bastante o sentimento de me sentir impostora por estar apenas reunindo e replicando, de uma maneira própria, todas as minhas referências e inspirações. É que eu sempre tive expectativas muito altas, sempre me cobrei demais, e algumas pessoas também faziam a minha preferência de criar para mim mais do que para outras marcas parecer egoísta e superficial. E eu me deixava acreditar nessa “verdade”. 

Criei e comandei uma revista digital bastante inovadora para a época por 7 anos que nunca me gerou uma renda financeira significativa (apesar de ter gerado muito crescimento pessoal, aprendizado, amizades e contatos profissionais – e isso já é muito valioso!). Atualmente vejo publicações online de baixíssima qualidade com recursos e alcance muito maiores do que aLagarta (a revista) teve em todo o seu ciclo. Sempre me perguntei por quê ela nunca chegou a crescer dessa forma. Hoje, eu vejo tudo com mais clareza. O problema não era “o Brasil, que não dá valor para a Arte, não tem o público certo”. No fundo, era eu que não acreditava que merecia sucesso financeiro e me sustentar com algo que amava fazer. Eu não me achava boa o suficiente, “genial” o suficiente e não sabia colocar em prática a fé no lado bom e positivo das coisas. E toda vez que algo desandava, eu acabava acreditando que o projeto não era bom o bastante, ou destinado o bastante a dar certo.

Apesar das decepções, segui criando. Como boa capricorniana, sempre fui apaixonada por trabalho. “Minha carreira, minha vida” – é bem por aí. Mas pra mim, e para muitos da minha geração, não existe empreender sem propósito. Propósito primeiro, negócios depois. E para completar, eu só sei criar de forma fluida quando sou apaixonada pelo assunto, ou quando sinto alguma identificação com a temática. Posso criar mil marcas com alma, personalidade, contextos e universos verbal e visual (e tudo mais o que o processo envolve). Mas não me peça para fazer nada apenas pelo dinheiro, pela venda, pelo ROI. Não me peça pra surfar a última onda do momento. Eu sofro! E sofri por muito tempo, trabalhando para outras empresas. 

Muitas vezes, as pessoas confundem essa postura com uma atitude preguiçosa, acham uma utopia. Mas eu nunca me opus a pegar empregos fixos ou clientes que nada tinham a ver comigo (precisando trabalhar para gerar renda, a gente engole seco e trabalha, né? E aprende muitas coisas no caminho também). Particularmente, não acho nada preguiçoso ter jornada dupla ou até tripla de trabalho, e de domingo a domingo, como vivi por um tempo, equilibrando emprego fixo e freelas com projetos que eu realmente queria pegar ou criar (porque, claro, quem é Criativo não sossega!). Da mesma forma, também não acho nada light tomar conta do seu próprio negócio fazendo todos os cargos: do Financeiro, passando pelo Design e a Comunicação, até a venda do produto. Então, pense duas vezes antes de julgar de preguiçoso um Criativo que está buscando fazer o seu negócio e trabalhar para si. 

Não faz muito tempo, antes de me assumir como Criativa e iniciar esse novo ciclo na minha vida, eu ainda seguia o mesmo pensamento limitante: “Talvez a vida seja arrumar um emprego pra pagar as contas e manter projetos paralelos. Contanto que eles existam, contanto que eu possa trabalhar neles a partir das 20h da noite e aos fins de semana, tá tudo certo” – eu pensava. Não. Não acredite nessa ilusão. Viver da Indústria Criativa fazendo o que se ama é uma escolha com muitos riscos e, sim, é apavorante. Mas para pessoas como eu, muitas vezes é o único caminho, ou você morre por dentro. Não morra por dentro.

Desperte em você. Assuma quem você é.

Eu aprendi que o emprego fixo é uma ilusão quase tão instável quanto ser autônomo. Muitas vezes nos agarramos em um cargo que não paga tão bem, e não tem perspectiva de crescimento, só para ter aquela garantia de que alguma coisa vai cair no fim do mês. Eu estava ficando doente, infeliz e continuava devedora no banco. Afinal, com tanta vontade de fazer mais, por que então eu ainda estava nessa situação?

Até que, depois da terceira crise, eu disse “Basta!”. Decidi assumir as minhas vontades, ideias e fazer, aos poucos e dentro do possível, a transição dos “projetos paralelos” para “aquilo que não só me faz feliz, mas também me sustenta financeiramente”.

Aprendi a relevar ou ignorar quando ouço que “é um luxo fazer o que se ama como trabalho”, ou que “quase todo mundo trabalha com o que não gosta, a vida é assim mesmo, aceita que dói menos”. Finalmente resolvi aceitar que eu não nasci com essa fagulha no peito à toa. Afinal, se tem tanta gente fazendo dos seus sonhos uma realidade, eu me recuso a seguir fora dessa estatística!

Assim como uma chave que vira na mente, decidi que era hora de transformar alguns padrões mentais e afastar pensamentos tóxicos. Mudei o mindset. Iniciei uma série de declarações positivas que leio todos os dias, voltei a meditar e pedi para o Universo o que eu realmente queria: voltar a ser autônoma e exercer mais a minha criatividade no meu ofício. Parei de reclamar. E claro, arregacei as mangas! Prospectei, mandei emails, fiz reuniões, atualizei o meu site. Então, as coisas começaram a aparecer e a acontecer. 

Um outro fator importante nesse processo de transição foi também observar os erros cometidos em tentativas no passado para não comente-los novamente. Por exemplo, quando eu era mais nova e buscava tocar meus “projetos paralelos” da época, além de me boicotar, também cometi o erro de depender demais dos outros. Coloquei meus preciosos projetos nas mãos de outras pessoas por dois motivos: preguiça de abraçar tudo e o hype da colaboração. Lá em 2011, 2012, essa era “a” palavra do momento (da mesma forma que “propósito” é a de agora) e ai de quem discordasse e quisesse trabalhar sozinho! Só que você precisa escolher muito bem com quem colabora, além de ter muita segurança de quem você é para poder se impor. Não era o meu caso, eu ainda era nova demais, ingênua e inexperiente. Tive ao meu lado profissionais maravilhosos, mas também vi projetos inteiros se perderem nas mãos de outras parcerias não tão maravilhosas assim.

Hoje, não ligo quando algumas pessoas me julgam como control freak. Sou mesmo e tenho imenso orgulho de não depender de quase ninguém para tocar as minhas coisas. E se tem um conselho que eu dou para novos empreendedores é: aprendam tudo! Fui deixada na mão inúmeras vezes, quebrei a cara e ralei por horas e horas para aprender tudo o que precisava. Por isso, amo ter a autonomia e a capacidade de fotografar, filmar, escrever, criar um logotipo, programar um website, instalar meus emails, dar meus workshops, montar minhas apresentações, emitir minhas notas fiscais etc. Não sei tudo, e não faço tudo perfeito, mas sei um tanto e realizo um tanto também. Essa vitória, ninguém me tira. 

Apesar do frio da barriga, tem sido uma jornada maravilhosa e gratificante, a de realizar sonhos e buscar propósitos. Empreender é uma palavra muito séria e, ao contrário de muitas pessoas que querem trabalhar para si, eu nunca liguei muito pra ela. Nunca me vi como empreendedora, “dona de um negócio”. É fato que durante toda a minha vida escolar e acadêmica eu me enxergava muito mais como dona de algo meu do que trabalhando e construindo carreira em empresas de terceiros. Porém, isso nunca se traduziu como “empreendedorismo” na minha cabeça – e sim como a simples “realização dos meus sonhos”. Empreender, pra mim, é consequência; no final, você acaba fazendo a parte burocrática por puro instinto de sobrevivência (não me pergunte como eu tirei o meu MEI, que eu mal vou lembrar). 

 

O quebra-cabeças do meu mapa astral junto com toda a minha criação familiar e influências externas me tornaram uma pessoa paradoxal. Bem realista, mas com desejos ambiciosos; pés no chão, mas com um enorme encanto diante das belezas da vida. O resultado é um combo que eu mesma demorei pra entender e enxergar o lado positivo, pois traz muita luta no processo de autodescoberta, principalmente no lado profissional. Mas ajuda demais na hora de ter um negócio próprio.

Penso que empreender e criar produtos – sejam eles físicos, digitais ou uma experiência – com transparência, amor e substância é a receita ideal. E uma vez que você tem um caminho traçado e uma marca bem estabelecida na mente das pessoas, fazer negócio se torna mais fluido, mais prazeroso.

Hoje, além de Fotógrafa, Designer e Videomaker autônoma, sou muito focada na marca meia ponta, uma multiplataforma sobre ballet clássico, e me dedico a ela como qualquer outro cliente ou trabalho. Comecei o ballet já adulta, com 21 anos, e decidi na época criar um blog (claro, era 2009!). Por 8 anos o meia ponta foi apenas um… adivinhem? “Projeto paralelo”. Até que finalmente acordei para o seu enorme potencial e resolvi que iria torná-lo rentável, ainda que começasse com pouco.

Comecei com o workshop de Branding e Fotografia para Instagram (o mp WORKSHOP), compartilhando conhecimento com as minhas seguidoras. E daí, não parei mais. Só entre 2017 e 2019 eu lancei o mp Ballet Stories; o mp Ballet Tour (uma viagem em grupo cultural focada em ballet, que acontecerá em Outubro, para Londres) e a revista Aurora. Também publiquei um e-book de Introdução à Fotografia Dança - Edição Palco e lancei fundos de tela temáticos, artes informativas, vídeos para o YouTube etc. Sou fotógrafa oficial da Primeira Bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Claudia Mota e de diversos bailarinos do Rio. Recentemente, também fechei ações com a Capezio, marca de dancewear super relevante, para produzir conteúdo exclusivo no Festival de Dança Joinville (o maior do Brasil), que aconteceu em Julho, e também com a importante premiação internacional YAGP para sua 1ª edição no Brasil, que acontece esse mês, em São Paulo. 

Eu ainda não vivo 100% do meia ponta, mas estou construindo o meu negócio com confiança e, mais importante, sem autoboicote! E eu não sei o que seria de mim se não ouvisse o meu chamado criativo. Foi ele que me trouxe até aqui. 

A criatividade me salva todos os dias. Ela me faz sentir viva e foi a minha sede de criar que me manteve sã e na busca de ser mais eu mesma; a busca em direção ao meu propósito. 

A busca apenas começou e eu ainda não sei exatamente onde posso chegar. Então, vou citar Raul pra finalizar esse gigante texto: “não sei onde tô indo, mas sei que tô no meu caminho”. E como a música segue, “desde aquele tempo enquanto o resto da turma se juntava pra bater uma bola, eu pulava o muro, com Zézinho no fundo do quintal da escola. Eu sempre estive lá.” 

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Carol Lancelloti
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Carioca, tenho 31 anos, comunicadora, fotógrafa, videomaker e designer. Em 2010 criei a primeira revista digital colaborativa para mulheres do Brasil, aLagarta, que se manteve ativa até 2017. Hoje, estou dedicada ao projeto de ballet, meia ponta.

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